segunda-feira, 21 de setembro de 2020

DIA DO VIZINHO


 

DIA DO VIZINHO

Eu tenho doces recordações de meus vizinhos durante minha distante infância no sítio. Todos vizinhos se comportavam como bombeiros, sempre atentos em socorrer uns aos outros e ajudar numa emergência. Todos se conheciam por nome ou apelido e gentilezas corriam soltas na pequena Ibitiura de Minas. Havia sempre compartilhamento de produtos agropecuários entre todos, assim, ninguém saboreava um porco gordo sozinho. Aquele que abatia um fornecedor de proteína mandava um bom prato de carne crua ainda quente aos vizinhos mais próximos. Eu criança fazia o papel do sedex levando um bom bocado para a vizinhança e voltava no mínimo com alguns ovos caipiras no vasilhame em agradecimento. Raramente a vizinha pedia mil desculpas por não ter nada para devolver na nossa travessa, agora lavada e enxugada por ela. Da mesma forma agia minha mãe quando agraciada com algum presente de vizinhos; o que houvesse disponível em nossa casa de produto do sítio era enviado no vasilhame do doador em forma de gratidão.  Quando sitiantes estavam em apuros com alguma colheita agrícola, eram promovidos os famosos mutirões, em que todos corriam em socorro graciosamente, contando apenas com uma marmita de comida no almoço fornecida pelo promotor do evento. Era constante a doação de açúcar ou porção de pó de café aos surpreendidos com falta dos produtos. Ninguém ficava sem a “boca de pito”, como era chamado o cafezinho. Algum produtor de fumo da região promovia a chamada ”Destala”, que mais parecia uma festa reunindo dezena de homens e mulheres, que em rapidez mágica retiravam o talo das folhas de fumo formando pequenas pilhas bem organizadas, que depois eram enroladas na artesanal feitura do fumo de rolo. Tudo era feito na amizade e com alegria.

Os grandes centros urbanos ocasionaram uma grande mudança de comportamento entre vizinhos diante da concentração em condomínios de apartamentos ou ruas. Os vizinhos hoje no mínimo se ignoram, quando não convivem em pequenas desavenças ou até guerra declarada. Grande parte não sabe nos dias de hoje os nomes, muito menos profissão de vizinhos de porta de apartamento ou residente em casa vizinha. A grande maioria se porta como concorrentes por espaço, ao invés de se achar pessoas que têm o mesmo bom gosto ao morar no mesmo bairro, rua, condomínio e cidade. Moradores quase que só cultivam convivência de garagem e elevador e se olham como potenciais perturbadores de sua tranqüilidade e sossego.  De fato Vizinhança é à primeira vista uma convivência forçada. No condomínio as pessoas compartilham barulhos, filhos adolescentes, festas, doenças e coisas íntimas são vazadas aos fofoqueiros de plantão. E pessoas são diferentes, umas mais afáveis e prestativas e outras rudes e difíceis de serem suportadas. Aí é preciso que os ponderados e inteligentes se conscientizem que é melhor fazer o possível para entender os agressores e enviar gentilezas, ao invés de abrir guerra. A convivência por vizinhança tende a ser duradoura, às vezes até o fim da vida. Melhor então fazer tudo que estiver ao alcance para haver o máximo de amizade no convívio. Até o casamento entre pessoas que se amam podem acabar durante a lua de mel, caso os amantes não passem por cima das diferenças entre si. A compreensão e esforço em entender as subjetividades alheias entre os vizinhos são fundamentais para uma feliz vizinhança. Cabe aos mais sábios desarmarem os agressivos condôminos mandando balas, mas de mel, ou flores. Esta pandemia Covid-19 demonstra como é importante e saudável o alegre convívio com vizinhos e amigos, quando é possível. Estamos todos ávidos em tirar as máscaras e de nos juntarmos em festas e churrascos. Para isso precisamos de amigos vizinhos e amigos distantes.

Quando comecei escrever sobre este tema pensei sugerir a criação do DIA DO VIZINHO para ser fortemente comemorado a nível nacional e até mundial. Fui pesquisar e constatei que existem já duas datas disputando esta homenagem, que eu nunca havia ouvido falar de sua existência.  Consta que o DIA DO VIZINHO é comemorado nos dias 23 de dezembro e no dia 20 de agosto. Dia 23 de dezembro não se sabe o motivo, mas 20 de agosto é em homenagem ao nascimento da poetisa CORA CORALINA. Fica, no entanto, minha sugestão de oficializar uma data, seja qual for ela, para dar um impulso na melhora das relações dos vizinhos em geral. Com certeza, se desenvolver-se o costume de trocar lembranças em DIA DO VIZINHO, por pequenas e simples que sejam, haverá imensa melhoria nesta relação hoje tão fraca e tumultuada. Família unida numa vizinhança saudável faz bem para a saúde de todos. 

 


Nenhum comentário:

Postar um comentário